A Escola Jônica: características e principais filósofos

Mito e filosofia

A reflexão moral e intelectual dos antigos gregos cresce ao mesmo tempo que se desenvolve sua civilização e sua relação com os outros povos. O pensamento grego buscou cada vez mais explicar de forma racional os mistérios do universo. Tal explicação, no entanto, passa lentamente de uma concepção mítica na qual a religião dos mistérios desempenha um papel considerável para uma concepção mais racional do mundo.

A maioria dos filósofos pré-socráticos buscou entender o mundo e como ele foi criado. Eles contam primeiro com cosmogonias da religião tradicional, e a partir delas desenvolve-se a primeira reflexão “científica” baseada na observação de fenômenos elementares. Antes de serem o que chamamos hoje em dia de “filósofos”, esses pensadores antigos foram chamados também de “fisiologistas”, “físicos”.

Os pré-socráticos

Os pré-socráticos filosofaram sobre a Natureza (physis), e alguns deles eram astrônomos, geógrafos e matemáticos. Eles criaram “escolas filosóficas” que reuniam tendências comuns vinculadas a uma cidade, por exemplo, a Escola de Eléia, de Mileto, Jônica etc.

A Escola Jônica

A Escola Jônica foi a primeira escola filosófica e “científica”. Os pensadores jônicos são os primeiros a fazer a pergunta fundamental: “de que são feitas todas as coisas?”

Tales de Mileto (625-547 a.C.)

A tradição grega coloca Tales de Mileto entre os Sete Sábios, fundador da Escola Jônica, mas tudo o que se sabe sobre ele é questionável.

Inspirado pela cosmologia tradicional, Tales afirma que “tudo é feito de água“, formulando assim a primeira tentativa de uma “filosofia da natureza”.

Segundo este pensador, a água, princípio primordial e primitivo, gera a terra como resultado de um processo físico; o ar e fogo também surgem a partir da água, e as estrelas flutuam como barcos nas águas.

Anaximandro (610-546 a.C.)

Chefe de uma colônia Milesiana na costa do Mar Negro, Anaximandro é considerado o primeiro a ter desenhado um mapa geográfico em um tabuleiro; ele também é considerado o autor de um tratado chamado Sobre a Natureza, escrito aos sessenta e quatro anos.

Criticando Tales, Anaximandro considera que o elemento primitivo é o Infinito ou Ilimitado (ápeiron, em grego), um fundamento da matéria que se estende em todas as direções. Ele seria o primeiro a usar o termo “princípio” (arché), uma substância primitiva que Aristóteles chama de “causa material”.

Ele concebe que as diferentes formas da matéria estão em luta contínua. Eterna, englobando todas as coisas, a natureza procede por união e dissociação de opostos: quente e frio; seco e molhado. Tudo nasce de uma mistura e a mudança é o resultado da luta dos opostos.

Anaximandro é também o precursor da cosmologia, um sistema coerente do mundo. Os primeiros pitagóricos, depois Platão e Aristóteles, aperfeiçoarão suas abstrações que darão origem à cosmologia grega aceita até Copérnico: a terra é um disco plano cuja altura é um terço do diâmetro; não precisa de suporte. Nosso mundo é cercado por uma infinidade de outros.

Anaxímenes (550-480 a.C.)

Não se sabe quase nada sobre a vida de Anaxímenes, apenas que ele é o autor de um livro escrito em uma linguagem simples e acessível que se perdeu.

Como Anaximandro, Anaxímenes acredita em uma substância primordial, mas afirma que tal substância é o ar, que ele também considera como algo indeterminado, “não ilimitado”.

Os diferentes tipos de seres que nos cercam vêm ou da rarefação ou da condensação do ar. O ar é deus, a nossa alma é feita desta força viva que mantém o mundo vivo (concepção partilhada pelos pitagóricos).

À medida que se solidifica, o ar dá origem a um corpo de natureza cristalina; uma troca perpétua de matéria ocorre entre o céu e a terra, de modo que, dentro desse movimento perpétuo, a condensação e rarefação do ar produzem corpos diferentes.

A escolha do ar é fruto da especulação científica: não só é o elemento pelo qual a Terra e as estrelas ficam em suspenso, mas também é “alma e pensamento”. Segundo Plínio, Anaxímenes teria inventado o “cálculo das sombras” e mostrado o primeiro relógio de sol.

A concepção astronômica de Anaxímenes terá uma influência duradoura no Ocidente: ao se comprimir até os limites do mundo, o ar forma uma abóbada que seca e se solidifica sob a influência do fogo; à medida que escasseia, o ar produz estrelas. A Terra, como outras estrelas, é uma espécie de mesa fina, de formato côncavo, suspensa no ar.

Heráclito de Éfeso (576-480 a.C.)

Heráclito teria nascido no início do século V a.C. Membro de uma família aristocrática e sacerdotal estabelecida em Éfeso, ele foi instruído no conhecimento dos mistérios. Este é provavelmente um dos motivos de seu gosto por expressões enigmáticas que lhe valeram o apelido de “obscuro”.

Ao contrário de seus predecessores, ele estava mais preocupado com a teologia e a moral do que com a cosmologia ou o estudo da natureza.

Para Heráclito, o Fogo é a matéria mais sutil e menos corpórea.

As coisas evoluem de acordo com a lei dos opostos ou, mais precisamente, a substituição dos opostos: a sombra se torna luz, o frio se torna quente, etc. Esta oposição, que também é um princípio, é a condição do devir, “tudo flui“, eternamente sujeito a uma perpétua metamorfose que evolui segundo um ciclo em que se realiza a coincidência dos opostos: a harmonia.

A palavra “harmonia” pertence ao vocabulário grego dos carpinteiros: originalmente significava “juntar duas vigas”, daí a ideia de equilíbrio. Heráclito dá um novo sentido a uma noção estabelecida por Pitágoras: o mundo real é um belo ajuste de forças opostas. Reconhecer a existência deste conflito sem fim, nos permite descobrir que o mundo é uma harmonia oculta onde vibra uma harmonia profunda.

Anaxágora (520-428 a.C.)

Nascido em Clazómenas na Jônia, Anaxágoras foi o primeiro filósofo a se estabelecer em Atenas, onde, por cerca de trinta anos, teria ensinado.

Um herdeiro digno da escola jônica, ele se tornou o professor e amigo de Péricles; alguns afirmam que Eurípides foi seu aluno. Apaixonado por questões científicas e cosmológicas, ele era tão desinteressado pelos assuntos públicos a ponto de afirmar que o céu era sua pátria e as estrelas sua missão.

A desgraça de Péricles também foi sua; injustamente acusado de desprezar os deuses, o filósofo refugiou-se em Lâmpsaco, onde morreu. Sócrates afirmou a seus juízes que suas ideias eram as de Anaxágoras.

Para ele, o número de coisas é infinito e nenhuma delas é como a outra. Cada parte que constitui uma coisa contém uma pequena porção de matéria em proporções variáveis. Um pouco de tudo está em tudo: a neve contém preto, ainda que predomine o branco.

Anaxágoras demonstra a validade de sua teoria pela divisibilidade infinita da matéria (ele é o primeiro a apresentar este argumento, então desenvolvido pelos atomistas). De certa forma, ele dá uma primeira formulação da teoria de Lavoisier, segundo a qual, “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, desenvolvendo a ideia do continuum real.

Para Anaxágoras, o mundo foi criado por uma força que tudo organizou. Ele nomeia Nous esse ser pensante ou inteligência que é, segundo ele, infinito, autônomo e não se mistura com nada.

Sob o impulso desta rara e sutil substância, a matéria começou a girar, a girar a ponto de atingir todo o ser existente: assim, o mundo está sujeito a um conjunto de forças mecânicas: estes são os elementos mais importantes. Essa inteligência não é de forma alguma dotada de uma personalidade: não deve ser comparada a um deus criador ou à providência.

Anaxágoras foi o primeiro a estudar os eclipses solares e a pensar que são o resultado da passagem da lua entre a terra e o sol. Segundo ele, “todos os seres que têm alma são movidos pela inteligência (Nous)”, em diferentes proporções: os planetas são dotados de inteligência “mínima”, as plantas têm vida e sensibilidade e são produzidas, como os animais, a partir de uma mistura de todas as substâncias.

A sensação é produzida pelo oposto e não pelo semelhante: o frio é sentido em contraste com o calor.

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